quinta-feira, 7 de janeiro de 2010


"Não é preciso ter razão para cantar. Para dar ao corpo uma manhã mais tarde, uma noite mais úmida. Para decorar a letra tremida da carne. Canta-se como uma telha solta do telhado, para se confessar de alegria. Canta-se para não dizer tudo o que resta a dizer. Para não ser dito o que não cabe, para que sejam lidas as labaredas. Canta-se para confundir o pão e os insetos, as mãos e os seios, os joelhos e ladeira da chuva. Canta-se para não dormir durante a leitura. Para roçar um vestido. Para se privar do invisível. Canta-se para não assentar o fundo, para retardar o caminho de regresso. Canta-se para amar o que ainda nem nasceu, para interromper uma recordação triste. Canta-se ainda que sem voz afinada, sem apetite. Canta-se como uma poeira luminosa que sobe dos tapetes e que só é vista na infância ou quando se canta. Canta-se com o relógio de árvore. Com as ervas mastigadas pelas águas, pela extensão dos cabelos. Canta-se pelo silêncio crespo do vinho, pelo vitral que há no vinho. Canta-se pelas pedras onduladas das lâmpadas, para se apoiar na velhice das escadas. Canta-se para ultrapassar a mágoa, para não ter motivos. Canta-se para embaralhar a confiança e a carícia, desobedecer o ventre, injuriar com um beijo. Canta-se para arrumar os ombros, ajeitar a gola, subir na grama. Canta-se para alimentar o que não é letra. Para despedir-se do começo. Canta-se para viver no mesmo dia dos lábios. Pela falta de equilíbrio dos segredos. Canta-se para persistir quando era o momento de se apagar. Canta-se para convencer o passado que ele ainda não imaginou o suficiente. Canta-se para respirar mesmo sem ar. Para respirar debaixo de um corpo." (Fabrício Carpinejar)
"(...) mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco".
(Friedrich Nietzsche)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os Prêmios - Julio Cortázar

“- Pingue-pongue – disse Paula.
-Pingue-pongue?
-Sim, eu pergunto como você está, você me responde, e depois me pergunta como estou. Eu respondo: Muito bem, Jamaica John, apesar de tudo. O pingue-pongue social, sempre deliciosamente idiota como os bis dos concertos, os cartões de felicitações e mais três milhões de coisas. A deliciosa vaselina que conserva tão bem lubrificadas as rodas das máquinas do mundo, como dizia Spinoza.”

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

''Fique contente, não analise e fique contente. A gente tem o vício (eu, pelo menos) de matar a alegria com mil análises críticas que geralmente não têm nada a ver.
Toque o barco sem medo. Gente como você é sempre uma força.'' C.F.A.

domingo, 27 de dezembro de 2009


"Não é por outra razão que estou aqui tentando colocar ordem nestas idéias que vivem em trânsito. Não chego a temer a loucura, no fundo a gente sabe que ninguém é muito certo.

Eu tenho medo é da lucidez. Tenho medo dessa busca desenfreada pela verdade,pelas respostas. Quando estou acostumando com uma versão de mim mesma surge outra, cheia de enigmas,e vou atrás dela. Tem tanta gente que elege uma única versão de si próprio e não olha mais pra dentro. Esses é que são os lunáticos.

Eu, ao contrário, quase não olho para fora.

Você me entende? Eu não tenho medo de perder o senso. Eu tenho medo é desta eterna vigilância interior, tenho medo do que me impede de falhar.

O que me amedronta é essa minha insistência em me enfrentar."
"Você é adulto mesmo? Então pare de reclamar, pare de buscar o impossível, pare de exigir perfeição de si mesmo, pare de querer encontrar lógica pra tudo, pare de contabilizar prós e contras, pare de julgar os outros, pare de tentar manter sua vida sob rígido controle. Simplesmente, divirta-se."

sábado, 26 de dezembro de 2009

"Quem navega, não pensa em perda nem permanência:
só busca o caminho das ondas e do ar." - Lya Luft